O AMBIENTE RELIGIOSO DA INGLATERRA



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: CHATFIELD, Adrian. Algo em Comum: Uma Introdução aos princípios e práticas do anglicanismo mundial. Tradução de Jaci Maraschin. Edição e editoração de David Payne. St John’s Nottingham; TEAC. p. 12ss.


Se pensarmos no anglicanismo como o conjunto de ramos de uma árvore, este capítulo nos mostrará como todos esses ramos brotaram de um só tronco a partir de raízes plantadas no mesmo solo – o ambiente histórico da antiga e milenar igreja na Inglaterra.
HISTÓRIA 
Não pretendemos abranger toda a história. Selecionaremos alguns temas que nos parecem mais importantes para se entender a história do anglicanismo. Talvez você queira consultar alguma história mais simples sobre a igreja cristã nessa parte do mundo para suplementar seu estudo. Os pesquisadores ingleses acharão a história da igreja inglesa de David Edward bastante ilustrativa. O livro, The Making of the Anglican Communion Worldwide é muito útil porque nos dá perspectivas mais globais, desde a Reforma até nossos dias. Sobre o período medieval, nada melhor do que a história contada pelo Venerável Beda. Trata-se de leitura maravilhosa e estimulante, considerada hoje em dia, acurada.
Cristianismo romano
Havia na Inglaterra uma igreja fundada pelos romanos desde tempos primitivos. Os cristãos vieram para o território britânico por volta do ano 200 d.C. junto com a ocupação romana. O cristianismo inglês, portanto, faz parte da comunidade cristã antiga. Há evidência de que cristãos, como Santo Albano, foram martirizados na Inglaterra nos séculos 3 e 4 de nossa era.
A igreja na Inglaterra teria sido organizada, como em outras partes do Império Romano, com hierarquia de bispos. Segundo as normas da prática romana, as sés episcopais situavam-se em cidades. Os bispos supervisionavam bispos, sacerdotes e diáconos. Quando cessou o controle romano sobre os britânicos no começo do século quinto, as cidades (onde vivia a maior parte dos cristãos) entraram em colapso e os líderes romanos das igrejas fugiram, em primeiro lugar, para as zonas rurais e, depois, para o continente europeu. Ao mesmo tempo, grupos tribais (que não eram cristãos) invadiram as cidades e isolaram os britânicos do resto da Europa. Esses grupos ( anglos, saxões e outros) trouxeram suas práticas religiosas como, por exemplo, o culto de Woden. Traços dessa tradição ainda se encontram na língua inglesa - Wednesday [quarta-feira] é o dia de Woden. Igrejas foram destruídas e os educados fugiram. Entretanto, alguns convertidos cristãos permaneceram e mantiveram viva a fé cristã. Eram chamados de britons (palavra que originou o termo britânico). Não tinham para onde fugir!
Cristianismo britânico
utras partes da Bretanha (País de Gales, Escócia Ocidental e boa parte da Irlanda) também teriam sido evangelizadas muito cedo, mas por outra forma de cristianismo não-romano. É o que se chama, em geral, de cristianismo britânico, tendo essa palavra o sentido dado a várias tribos aborígenes da Bretanha. Não temos evidência histórica, embora haja referências a essa possibilidade nos desenvolvimentos posteriores do cristianismo celta. É daí que vieram os grandes santos celtas: Patrício, Niniano, Columba e outros.
Há fortes evidências de que esse tipo de cristianismo teve raízes na África do Norte. Até os observadores menos meticulosos podem perceber semelhanças entre a arte egípcia e a arte cristã irlandesa!
É provável que cristãos romanos e britânicos tivessem trabalhado em conjunto na era pós-romana, mas com algumas diferenças importantes:
  • Nessa época não havia cidades. A igreja era governada pelos líderes de comunidades monásticas, abades e abadessas. Havia bispos que se encarregavam principalmente de funções sacramentais. O abade exercia autoridade sobre cada comunidade tribal monástica.
  • Cristãos solitários e andarilhos encarregavam-se da evangelização bem como da implantação de novos mosteiros e de igrejas a eles subordinadas.
  • Não havia centralização sob o báculo de bispos presidentes.
Assim, a história da igreja na Inglaterra oscilava entre dois tipos: 
Cristianismo romano, urbano, bem estabelecido, governado por bispos relacionados com o bispo de Roma.
Cristianismo bretão, rural, peregrino, governado por líderes monásticos, com bispos considerados iguais.
AGOSTINHO e a missão gregoriana
No ano em que morreu Columba, um dos mais importantes bispos de Roma da época, Gregório Magno, enviou missionários à Inglaterra para converter os anglo-saxões. É provável que nunca tivesse ouvido falar da existência do cristianismo britânico. Entre esses missionários destacava-se Agostinho.
A Inglaterra era governada na época por diversos “reis” ingleses. Ethelbert casara-se com uma princesa cristã ( de origem franca) e permitia conversões ao cristianismo, embora ele mesmo nunca se tivesse convertido. Dois outros “reis” vizinhos converteram-se embora um deles adorasse ao mesmo tempo o antigo deus pagão.
ORIENTE E OCIDENTE
Quando falamos aqui em Ocidente ou igreja ocidental, referimo-nos à metade da Europa que falava latim e era governada por Roma e, depois, pelo norte da Itália. Do outro lado estava o Oriente que falava grego e era governado por Constantinopla. Essa divisão permanece no cristianismo europeu: o Ocidente tende ao catolicismo romano e protestante, e o Oriente, às igrejas ortodoxas.
Gregório estabeleceu duas províncias – a primeira em Cantuária (anteriormente Londres) e a outra, em York – com dois bispados. O povo tinha permissão de continuar a sacrificar seus bois, e o festival da primavera, em honra da deusa Eostre, transformou-se na Páscoa. As celebrações pagãs de Yuletide transformaram-se na festa da natividade (Natal).
Quando Agostinho descobriu que já havia cristãos nas ilhas, entrou em contato com eles e exigiu que ajustassem a data da Páscoa à estabelecida por Roma. Também introduziu o rito romano para batismo e confirmação. Essas ordens foram recusadas – talvez por causa da arrogância de Agostinho ou devido a sua dependência do rei Ethelbert.
Por volta de 619, Paulinus extendeu a missão romana à Northumbria. Edwin, rei dessa região, converteu-se em 628. Em 670 todos os reis ingleses já se haviam convertido ao cristianismo e começaram a suprimir as religiões pagãs – embora não se saiba muito bem até que ponto as práticas religiosas antigas persistissem escondidas.
À medida que o cristianismo romano avançava para o norte, suas duas versões - agostiniano/romano e britânico – enfrentavam-se e as disputas tornavam-se agudas. O problema não era doutrinário mas a respeito de autoridade. A questão da supremacia do bispo de Roma não havia ainda surgido entre os cristãos britânicos.
Assim, no Concílio de Whitby, em 664, os temas controvertidos eram estes:
  • Diferenças de práticas batismais.
  • Forma da tonsura (diferença no corte de cabelo usado pelos monges e o dos romanos).
  • Data da Páscoa.
Wilfrid de Ripon propôs um acordo, convencido, por ser do norte, da importância da adesão aos modelos romanos. Com isso, a igreja inglesa voltou-se para Roma.
Para se entender a natureza do anglicanismo convém lembrar o seguinte:
  • O cristianismo na Inglaterra não foi iniciado por Agostinho de Cantuária.Teve três começos – a ocupação romana, a igreja britânica e a missão de Agostinho.
  • Desde os primeiros dias, já existia certa tensão no cristianismo inglês entre o desejo de fazer parte da igreja ocidental ( cada vez mais subordinada aos bispos de Roma) e o reconhecimento de identidade própria, história e conseqüente senso de autonomia. Tal tensão entre autonomia local e reconhecimento mais amplo acentua a auto-compreensão da maior parte do anglicanismo.

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AGUARDEM!!!!

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